Espírito Santo tem terras raras, mas ainda vende barato sua posição estratégica

erras raras no Espírito Santo: potencial existe, mas riqueza depende da indústria, não do subsolo

Por Jackson Rangel

O Espírito Santo não é hoje um produtor relevante de terras raras. Ainda assim, o Estado ocupa uma posição estratégica em um dos setores mais disputados da economia global. O potencial capixaba está menos na lavra direta e mais na capacidade logística, industrial e tecnológica de integrar essa cadeia de alto valor agregado.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a produção de ímãs permanentes, turbinas eólicas, carros elétricos, painéis solares, lasers, chips e equipamentos militares. Sem elas, a transição energética simplesmente não avança.

Onde estão as terras raras no Espírito Santo

No território capixaba, as terras raras não aparecem em minas exclusivas. Elas surgem associadas a outros minerais, principalmente nas chamadas areias monazíticas, já conhecidas desde o século passado.

As principais ocorrências estão concentradas no Norte do Estado, em municípios como Linhares, São Mateus, Conceição da Barra e Pedro Canário, além de trechos da faixa litorânea. Nessas áreas, a monazita concentra elementos como cério, lantânio, neodímio e praseodímio.

Há ainda registros pontuais na região serrana e no Norte-Noroeste, associados a rochas alcalinas e pegmatitos, com presença de ítrio, disprósio e érbio, minerais de alto valor estratégico, embora em teores mais baixos.

Quais elementos têm maior valor econômico

Nem todas as terras raras têm o mesmo peso econômico. No Espírito Santo, os elementos mais relevantes são:

Cério e lantânio, abundantes na monazita, usados em catalisadores e vidros especiais.
Neodímio e praseodímio, essenciais para ímãs de alto desempenho, motores elétricos e turbinas eólicas.
Ítrio e disprósio, mais raros, porém críticos para tecnologia avançada e defesa.

Mesmo em pequenas quantidades, neodímio, praseodímio e disprósio concentram o maior valor de mercado.

Por que o Espírito Santo não explora diretamente

A resposta é técnica e econômica. Os teores encontrados no Estado são, em geral, baixos para justificar uma mineração exclusiva. Além disso, a separação das terras raras exige processos químicos complexos, caros e altamente regulados.

Isso torna inviável um modelo clássico de mineração primária, como ocorre em outros estados brasileiros.

Onde está, então, a oportunidade capixaba

O diferencial do Espírito Santo está fora da mina.

O Estado reúne fatores estratégicos raros no Brasil:
Portos estruturados, como Vitória e Barra do Riacho.
Infraestrutura industrial consolidada.
Integração com cadeias de mineração, siderurgia e energia.
Proximidade logística com Minas Gerais e Bahia, onde há projetos mais avançados.

Na prática, o caminho mais viável é a extração de terras raras como coproduto, a partir de rejeitos minerais, areias pesadas e resíduos industriais, agregando valor por meio do beneficiamento e da separação química.

O maior lucro não está em retirar o mineral do solo, mas em transformá-lo em óxidos, ligas e insumos industriais.

Comparação com outros estados

Enquanto Minas Gerais, Bahia e Goiás avançam em projetos de exploração direta, o Espírito Santo se posiciona como elo logístico e industrial da cadeia nacional de terras raras.

É uma função menos visível, porém mais estável e estratégica no longo prazo.

Um ativo geopolítico silencioso

O mercado global de terras raras é dominado pela China, que controla mais de 80% do refino mundial. Países buscam alternativas para reduzir essa dependência. Nesse cenário, Estados com capacidade industrial, segurança jurídica e logística eficiente ganham protagonismo.

O Espírito Santo pode não ter grandes jazidas, mas tem algo igualmente valioso: posição estratégica.

Conclusão

O Espírito Santo não é, hoje, um polo minerador de terras raras. Mas pode se tornar um hub industrial, logístico e tecnológico nesse setor crítico para o futuro da economia global.

A riqueza, neste caso, não está enterrada no subsolo. Está na capacidade de transformar oportunidade geológica em política industrial.