Rede possui concorrência de projetos mais rápidos e baratos, mas sustenta relevância com base técnica, comunidade e efeito de rede
A cada novo ciclo do mercado cripto, uma lista de blockchains promete “superar” o Ethereum. Os argumentos costumam ser parecidos: mais velocidade, taxas menores e experiência de uso simplificada. Ainda assim, passados quase dez anos desde seu lançamento, o Ethereum continua no centro do setor quando o assunto é contratos inteligentes, finanças descentralizadas e infraestrutura para aplicações digitais.
O motivo não está em um único fator, mas em um conjunto de características que se acumulou ao longo do tempo e que segue influenciando a escolha de desenvolvedores, empresas e usuários. Mesmo enfrentando limitações conhecidas, como períodos de congestionamento e custos elevados na camada principal, a rede se mantém como ponto de partida para boa parte do que se constrói em Web3.
A seguir, veja os principais elementos que ajudam a explicar por que o Ethereum segue relevante, mesmo em um ambiente onde a concorrência se multiplica.
1) Efeito de rede e liquidez concentrada em um só ecossistema
O Ethereum se tornou, na prática, o “endereço padrão” para boa parte das aplicações descentralizadas. Isso significa que, ao longo dos anos, usuários, capital e projetos foram se concentrando na mesma infraestrutura, criando um efeito de rede difícil de reproduzir.
Em finanças descentralizadas (DeFi), por exemplo, a presença de liquidez profunda e o histórico de funcionamento de grandes protocolos acabam atraindo mais usuários e, por consequência, mais desenvolvedores. Esse ciclo se retroalimenta.
Para muitas equipes, lançar um projeto no Ethereum não é apenas uma escolha técnica, mas uma decisão de distribuição: é onde está a maior parte do público e onde as integrações com carteiras, exchanges e serviços já existem.
Mesmo quando usuários migram para outras redes em busca de taxas menores, é comum que o Ethereum permaneça como base de referência e liquidação, especialmente em aplicações que exigem maior robustez.
2) Comunidade de desenvolvedores
Outro ponto que sustenta o Ethereum é o tamanho e a maturidade da comunidade de desenvolvedores. A rede popularizou padrões que se tornaram amplamente utilizados, como o ERC-20 (tokens) e o ERC-721 (NFTs), além de ferramentas que fazem parte do cotidiano de quem programa contratos inteligentes.
Esse ecossistema de padrões tem um efeito prático: criar no Ethereum costuma ser mais previsível. Existe documentação, histórico de auditorias, bibliotecas prontas e uma quantidade grande de profissionais com experiência real em produção.
Novas blockchains podem oferecer performance superior, mas nem sempre conseguem replicar o mesmo grau de padronização, suporte e compatibilidade entre aplicações.
Além disso, muitas redes concorrentes optaram por ser compatíveis com a Ethereum Virtual Machine (EVM), o que reforça a influência do Ethereum mesmo fora de sua própria cadeia.
3) Segurança e histórico de funcionamento em grande escala
Em blockchain, segurança não é apenas promessa: é tempo de funcionamento sob pressão. O Ethereum já atravessou momentos de pico de demanda, ciclos de especulação e fases de alta exposição pública, mantendo a operação de forma consistente.
Isso não elimina riscos e o próprio ecossistema já enfrentou falhas em contratos e ataques em aplicações, mas a base do Ethereum se consolidou como uma infraestrutura testada em larga escala.
A rede também conta com uma das maiores estruturas de validação em proof of stake do setor, com um número elevado de participantes e uma distribuição relevante de nós e validadores ao redor do mundo.
Para projetos que movimentam grandes valores, essa estabilidade pesa. Em muitos casos, a prioridade não é apenas custo baixo, mas previsibilidade e confiança no ambiente onde o protocolo vai operar.
4) Estratégia de escala via Layer 2 e evolução contínua do protocolo
O Ethereum não tenta mais “resolver tudo” na camada principal. A rede passou a trabalhar com uma estratégia em que a escalabilidade acontece principalmente por meio de soluções de segunda camada (Layer 2), que processam transações fora da base e registram dados consolidados depois.
Esse modelo vem ganhando tração porque permite taxas menores e mais velocidade sem exigir que o Ethereum sacrifique descentralização. Ao mesmo tempo, o protocolo continua evoluindo, com atualizações voltadas a reduzir custos operacionais, melhorar eficiência e preparar a rede para sustentar esse ecossistema em camadas.
Na prática, o Ethereum se transforma em uma espécie de infraestrutura-base, enquanto as camadas extras ficam responsáveis por atender o usuário final com mais fluidez.
Mesmo com o avanço de blockchains mais rápidas e baratas, o Ethereum segue relevante porque reúne algo raro no setor: liquidez, comunidade, padrões amplamente aceitos e um histórico técnico que atravessou vários ciclos. Em vez de competir apenas por velocidade, a rede aposta em evolução contínua e em um ecossistema que se expande sem romper com o que a tornou referência.
