
A decisão de A Gazeta de não publicar reportagem sobre a nova ação civil pública do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) contra o ex-prefeito de Cachoeiro, Vítor Coelho (PSB), passou a gerar questionamentos no meio político e jornalístico capixaba.
O MPES protocolou neste mês uma ação por improbidade administrativa contra Vítor Coelho, ex-secretários municipais e o procurador envolvido no caso. A ação aponta suposto prejuízo superior a R$ 72 milhões ligado ao 14º aditivo do contrato de água e esgoto firmado com a BRK Ambiental.
Segundo a petição, os atos teriam ocorrido de forma consciente e dolosa para beneficiar financeiramente a concessionária. Além disso, o Ministério Público afirma que cerca de R$ 15 milhões da antecipação de outorga foram utilizados em despesas correntes e festivas da administração municipal.
O caso envolve um dos contratos públicos mais importantes da cidade. Por isso, o tema possui evidente interesse público.
Gravidade da ação
O conteúdo da ação é considerado grave nos meios jurídicos e políticos. O MPES pede quebra de sigilos bancários e fiscais dos investigados. Além disso, o órgão solicitou acionamento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
O objetivo é rastrear eventual movimentação financeira ilícita.
Na própria petição, o Ministério Público descreve a existência de um suposto esquema que teria favorecido a BRK Ambiental por meio de atos classificados como improbidade administrativa.
Mesmo assim, A Gazeta não publicou reportagem sobre o tema até o momento. Isso ocorreu apesar de jornalistas do veículo terem recebido acesso à íntegra da ação.
Histórico diferente
O silêncio atual contrasta com o histórico editorial do próprio jornal em situações semelhantes envolvendo a gestão municipal de Cachoeiro.
Em setembro de 2025, A Gazeta divulgou a suspensão judicial do reajuste tarifário relacionado ao mesmo contrato da BRK após atuação do MPES.
Além disso, em dezembro de 2024, o jornal publicou matéria sobre ação do Ministério Público envolvendo contratos temporários da Prefeitura de Cachoeiro durante a gestão Vítor Coelho.
Nos dois episódios, o veículo considerou relevante informar a população sobre investigações e medidas judiciais ligadas à administração municipal.
Agora, porém, o cenário é diferente. A nova ação possui dimensão muito maior. Ela envolve acusação direta de improbidade administrativa contra o ex-prefeito e pedidos de investigação patrimonial aprofundada.
Debate sobre critérios
O episódio reacendeu discussões sobre os critérios editoriais utilizados pela maior empresa de comunicação do Espírito Santo.
A Rede Gazeta, historicamente ligada à família Lindenberg, construiu ao longo de décadas uma reputação baseada em independência, ética e imparcialidade jornalística. Café Lindenberg sempre apareceu como uma das figuras centrais dessa tradição editorial.
Por isso, profissionais da comunicação e leitores passaram a questionar quais critérios justificariam o silêncio diante de uma ação considerada de alto interesse público.
Além disso, outra decisão recente envolvendo improbidade administrativa contra o secretário estadual Fábio Damasceno (PSB), da área de Mobilidade Urbana, também não recebeu cobertura do veículo.
A decisão judicial chegou à redação. Mesmo assim, o caso acabou ignorado editorialmente.
Dois pesos?
As críticas aumentam porque A Gazeta já publicou fatos envolvendo políticos e personagens públicos adversários do atual sistema político nacional mesmo sem condenações definitivas.
Entre os exemplos lembrados nos bastidores estão casos envolvendo blitz de bafômetro com deputado estadual, ações privadas contra este jornalista e até investigação considerada folclórica contra vereador por suposto crime eletrônico.
Diante disso, cresce o debate sobre eventual diferença de tratamento editorial conforme o personagem político envolvido.
Além disso, a discussão ultrapassa o caso de Cachoeiro. O tema atinge diretamente um dos pilares do jornalismo: a igualdade de critérios diante de fatos de interesse público.
O que diz o MPES
Na ação, o Ministério Público sustenta que houve favorecimento indevido à concessionária BRK Ambiental por meio do 14º aditivo contratual.
O órgão aponta possíveis danos milionários aos cofres públicos. Além disso, pede aprofundamento das investigações financeiras dos envolvidos.
Até o momento, os citados na ação ainda poderão apresentar defesa dentro do processo judicial.
Resumo
A ausência de cobertura de A Gazeta sobre a ação milionária do MPES contra o ex-prefeito Vítor Coelho provocou críticas e levantou dúvidas sobre critérios editoriais do principal grupo de comunicação do Espírito Santo.
O caso envolve acusação de improbidade administrativa ligada ao contrato da BRK Ambiental e suposto prejuízo superior a R$ 72 milhões.
Enquanto divulga de forma plena casos envolvendo políticos e atores contrários ao sistema de poder de plantão no país, é de se indagar se há dois pesos e duas medidas hoje na redação. Mesmo sem processo formal,
A Gazeta publica fatos contra um deputado estadual parado em blitz de bafômetro, divulgou ações privadas contra este jornalista e até um inquérito folclórico contra um vereador por suposto crime eletrônico, todos antagônicos ao atual sistema de poder no país.
Assim, surge uma questão central: quais critérios editoriais justificam noticiar casos semelhantes ou muito menos graves no passado e silenciar agora diante de fatos essencialmente jornalísticos, de notório interesse público?










