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Dos tempos gloriosos no Peru a empresário nos Estados Unidos

Dos tempos gloriosos no Peru a empresário nos Estados Unidos

Carlos Henrique: O Rei Sem Coroa - Série 5

  Por José Caldas da Costa

  21.outubro.2020 às 03:39Atualizado em 12.maio.2022 às 15:47

Carlos Henrique já passava dos 30 anos de idade quando foi jogar no Exterior. Primeiro, no Barcelona de Guaiaquil (Equador), em 1989, levado pelo técnico Edu Coimbra, irmão de Zico. No episódio anterior contei que Zico emprestou dinheiro ao ponta capixaba para pagar o passe ao Criciúma e ficar livre e desimpedido para empreender em sua carreira.

Do Barcelona teve uma breve passagem, também junto com Edu, no Cerro Porteño, do Paraguai, para, logo em seguida, ser levado pelo empresário uruguaio Omar Medina ao futebol peruano, onde viveu dias de glória. Carreira de jogador de futebol em alto nível costuma ser breve. Fazia 10 anos que Carlos Henrique havia deixado a Desportiva para jogar no Flamengo por três temporadas. O ponta aproveitou bem seus tempos no futebol peruano.

Inicialmente, foi levado para o Alianza Lima, mas marcando época mesmo no Sport Boys, campeão peruano da segunda divisão em 1989. Foi vice-campeão peruano da primeira divisão em 1990 pelo Sport Boys, com Cláudio Adão sendo artilheiro com 46 gols, e novamente em 1991. Disputou duas Libertadores da América, em 1991 e 1992. No Peru, não era Carlos Henrique, era conhecido como Páris.

Jogou também no Sporting Cristal, teve passagem pelo futebol europeu, e retornou ao Peru, para encerrar a carreira em 1996 e investir em restaurante e durante algum tempo como empresário de jogadores de futebol. Em 2002, mudou-se para os Estados Unidos, onde vive atualmente como dono de uma empresa de jardinagem e de imóveis nos arredores de Baltimore, cidade portuária da costa leste americana, a mais populosa do Estado de Maryland, com cerca de 700 mil habitantes, onde ficam a Universidade Johns Hopkins e o Hospital Johns Hopkins.

Carlos Henrique hoje vive com estilo, tem uma empresa de jardinagem e já desenvolve novos negócios nos Estados Unidos)

“Eu era o único estrangeiro no futebol peruano. Ganhava em dólares”

Quando se ouve falar do futebol peruano, se ouve falar do Alianza. E esse foi o destino de Carlos Henrique no primeiro momento. Entretanto, na região Metropolitana da capital peruana há uma cidade chamada El Callao, ou simplesmente Callao. É a cidade-sede do Sport Boys, a quarta força do futebol peruano. O time havia sido campeão peruano pela última vez em 1984, mas logo em seguida caiu para a segunda divisão e queria voltar para a primeira.

Foi assim que “Páris” acabou indo jogar no time rosado – assim chamado por causa da cor de sua camisa. E não poderia ter sido mais feliz. “Meu empresário chegou e me anunciou que o Sport Boys estava pagando bem, o mesmo que o Alianza, e eu fui prá lá. Eu era o único jogador estrangeiro no País naquela época. A moeda deles era muito desvalorizada e eu ganhava em dólares. Na época, eram 3 mil dólares. Parece pouco hoje em dia, mas na época era muito dinheiro. O dono do time era um judeu e eu recebi em dinheiro vivo, uma sacola cheia de dinheiro. Quando renovei o contrato, me deram um apartamento”, relembra Carlos Henrique.

No Sport Boys, Carlos Henrique, o “Páris”, foi campeão da Segunda Divisão, duas vezes vice peruano e disputou duas Libertadores)

Para se ter uma ideia do que representava esse salário para a época, Zico, ídolo de Carlos Henrique e o maior jogador do futebol brasileiro daquela década, havia sido transferido do Flamengo para a Udinese em 1983 ganhando em torno de 45 mil dólares por mês. Ou seja, apenas como referência, Carlos Henrique ganhava no futebol peruano o equivalente a pouco menos de 10% do que Zico ganhava poucos anos antes na Itália. Não eram comuns as transferências de jogadores brasileiros para o Exterior, como ocorre hoje em dia, e é bom lembrar que o jogador capixaba já estava com 31 anos de idade.

Vista do Porto de El Callao, o principal do Peru, no Pacífico. Na cidade fica o Sport Boys, onde jogou Carlos Henrique)

Callao é o principal porto peruano, no Pacífico, e é onde fica também o principal aeroporto do País. Tinha na época em torno de 700 mil habitantes, hoje tem mais de 1 milhão de pessoas. Seu estádio, o Miguel Grau, é uma praça de multiuso, construído em 1896, último ano da carreira de Carlos Henrique, com capacidade para 17 mil torcedores. Os grandes jogos eram disputados em Lima.

A estrutura era modesta, mas Carlos Henrique recorda-se que “o clube era uma delícia, uma torcida apaixonada”: “A gente sentia muito calor humano e isso nos conquistava. Cheguei para ajudar o time a ser campeão da segunda divisão de 1989 e fui aclamado como rei. Era muito bom e divertido. O técnico chegou para mim e perguntou quantos gols eu fazia por temporada e falei que 16. Então, ele disse que, se eu fizesse 16 gols, ele seria campeão. Quando nos classificamos para o quadrangular final, eu tinha feito apenas seis gols e ele me cobrou. Falei que não tinha acabado o campeonato. Na fase decisiva, fiz 11 gols. Isso me deu um contrato legal, eu vivia em hotel 5 estrelas, tinha carro com motorista”.

O Sport Boys embalou e chegou à final da Primeira Divisão dois anos seguidos: “Em 1990 e 91, fomos vice-campeões da primeira divisão. Em 90, levei o Cláudio Adão e o Adílio. O Adão foi artilheiro com 46 gols. Vivíamos um ambiente de muita alegria”. Até hoje aquele ataque com Marquinho (ex-Ponte Preta e Internacional), Cláudio Adão e Carlos Henrique é lembrado pelos torcedores que viveram os tempos áureos do time.

Carlos Henrique (de barba) com Cláudio Adão, artilheiro do Campeonato Peruano de 1990 com 46 gols, e Marquinho no poderoso ataque do Sport Boys) Sobre Adão, Carlos Henrique diverte-se sobre a chegada dele a Callao. A estrutura do clube era precária, treinava-se mais na praia, mas na hora do jogo tudo acontecia: “Quando ele pegou a camisa para vestir, olhou para mim e falou: ‘Cor-de-rosa, Carlos Henrique’? Eu dei uma risada e falei: ficou bem em você. Era assim que a gente vivia lá, alegre”. Como nos tempos de futebol amador em Cachoeiro de Itapemirim.

Dessa época, porém, o ex-jogador lembra-se de passagens mais tristes, como o dia em que tentou levar para o seu clube o meia Mendonça, ex-Botafogo. Mas essa parte eu vou contar na próxima reportagem, quando vou contar a razão de Carlos Henrique ter evitado, por mais de duas décadas, falar com jornalistas. “Futebol é muito triste”, foi o que ele disse para justificar a ausência dos temas de futebol.

“Comecei cuidando de um jardim e hoje tenho 50 clientes ricos”

O fim de carreira no futebol veio aos 38 anos, em 1996. O jogador disse que, antes, esteve na Copa da UEFA – “onde fiz meu pé de meia” -, onde teria sido vice-campeão. Em nosso último contato por telefone, essa informação acabou me passando desapercebida e não perguntei o fundamental: por qual time. Coisas que acontecem depois de quase duas horas falando ao telefone.

No período de 1990 a 1996, estes foram os campeões e vices da Copa da UEFA: 1990 – Milan (campeão), Benfica (vice); 1991 - Crvena Zvezda (campeão), Olympique de Marselle (vice); 1992 - Barcelona (campeão), Sampdoria (vice); 1993 - Olympique de Marselle(campeão), Milan (vice); 1994 – Milan(campeão), Barcelona (vice); 1995 – Ajax (campeão), Milan (vice); 1996 – Juventus (campeão), Ajax (vice).

Depois de três temporadas no Sport Boys, Carlos Henrique ainda jogou no Sporting Cristal, que tem 18 títulos peruanos e experimentou sua melhor fase no tricampeonato nacional de 1994-95-96. E no último ano, quando já perdia o entusiasmo pelo ambiente futebol, Carlos Henrique ainda foi jogar no Ciclista Lima, que é o segundo clube mais antigo do Peru, fundado em 1996. O time havia conquistado a Segunda Divisão em 1994, mas atravessava uma grave crise financeira.

“Cheguei lá, os jogadores estavam sem receber salários e reclamavam muito. Falei que, se não fosse para pagar todo mundo, eu não queria ficar. Como não deram a garantia, saí”, disse Carlos Henrique. E, pelo jeito, o buraco era profundo: naquele ano, o Sporting Cristal caiu para a Segunda Divisão e, em 1997, para a Terceira. Demorou para se recuperar. A partir do momento em que decidiu não mais jogar, Carlos Henrique tomou algumas decisões e parece que a principal foi: não falar mais de futebol. “Se me jogarem uma bola hoje, acho que vou pegá-la com a mão”, confessou aos seus colegas Marquinhos e Bica, quando esteve com eles no canal Tiro Libre.

Antes, porém, dessa decisão, ainda se aventurou como empresário de jogadores (essa parte, vou contar no próximo capítulo, sobre sua derradeira decepção com o futebol). Já estava com um restaurante em El Callao e dedicou-se a ele. “Sou quase um chef de cozinha. Eu tinha uma senhora que cozinhava muito bem e eu vivia na cozinha, aprendendo com ela”, recorda-se.

E foi com essa perspectiva que, em 2002, ele migrou para os Estados Unidos. No Peru, como no Brasil durante uns bons anos, entre o final do século passado e o início do presente século, as coisas estavam bem complicadas e as pessoas, sem muitas perspectivas, somente viam saída na migração para a América do Norte. E como tudo isso começou a acontecer?

“Meu sogro havia comprado uma mina de ouro desativada no Peru para vender as máquinas. Eu tinha um escritório no restaurante e peguei as máquinas para vender. Fiz bons contatos, vendi mais de 50 máquinas e ganhei uma boa comissão. Estava com um bom dinheiro no bolso. Minha mulher queria ir para os Estados Unidos. Havia muitos amigos nossos, peruanos, lá na América e eles falavam que se fôssemos para lá montar um restaurante iríamos nos dar muito bem”, contou.

Carlos Henrique juntou a família – ele, a mulher e dois filhos – e voou para a América. Chegou na Flórida e foi recepcionado pelos amigos peruanos. “Estava todo mundo reunido, mas os caras bebiam demais. Quando cheguei na casa, estava cansado, e eles tinham mais de 150 cervejas na geladeira. Fui vendo aquilo e pensei: não vai dar certo. Eu queria descansar e eles queriam beber. Para não ficar chato, tomei uma cerveja com eles. Não gosto de cerveja, mas bebi e fui dormir. No outro dia, saí para conhecer as coisas, ver como poderia me ajeitar nos Estados Unidos”, narrou.

Encontro no Rio de Janeiro com antigos companheiros de Flamengo: Júlio César, Carlos Alberto e Adílio)

Nessa hora, valeram as aprendizagens de quando era menino em Cachoeiro. Lembremos que Carlos Henrique, antes de decidir-se pelo futebol profissional, fez curso profissionalizante de eletricista no Senai e trabalhou na fábrica de cimento Ouro Branco, do Grupo Nassau. Ele começou a prestar serviços de eletricista numa empresa espanhola, mas a companhia queria mandá-lo para outra região, onde fazia muito frio e ele não quis ir.

Uma pessoa lhe deu a oportunidade de cuidar do jardim da casa dela e ali nasceu o seu negócio norte-americano: “Fui com minha mulher (Shirley Diaz) e começamos a fazer aquele trabalho. Passou um cara e ofereceu uma propriedade dele pra gente cuidar. Comecei a pedir indicações de jardins para cortar e elas foram chegando. Investi 50 mil dólares na compra de máquinas para trabalhar. Começamos a ganhar 2 mil dólares por semana. Comprei uma caminhonete e nessa altura eu já estava com gente nos ajudando. Começamos a comprar máquinas, carros e a ampliar o negócio, montamos uma empresa e já não trabalho mais para os outros”, revelou.

Com essa empresa de jardinagem, Carlos Henrique faz sucesso em Baltimore e já amplia seus negócios para a área imobiliária)

A boa qualidade do trabalho e a diligência fizeram do “Mr. Páris” uma referência na jardinagem em Baltimore, Estado de Maryland. Hoje, ele conta, orgulhoso: “Temos sete pessoas trabalhando conosco para uma carteira de 50 bons clientes, pessoas muito ricas da cidade. Isso nos dá em torno de meio milhão de dólares de faturamento anual”.

Essa prosperidade e a perspicácia possibilitou a Carlos Henrique encontrar outro ramo para investir: “Há alguns bairros aqui onde a gente encontra boas casas por 50 mil a 60 mil dólares. Passamos a comprar essas propriedades, reformar e alugar. Eu, particularmente, não tenho muita paciência, mas esse é um negócio que a Shirley gosta e é ela que toma conta. O negócio tem prosperado bastante e estamos felizes aqui”.

Mansões de luxo com grandes jardins em Baltimore: oportunidade que Carlos Henrique soube aproveitar

E os filhos, jogam futebol? Não, não jogam. Os dois, um de 26 e outro de 27 anos, falam espanhol e inglês fluente, estão terminando a universidade. Um cursa comércio internacional (international business) e o outro design gráfico. Durante mais de 20 anos, ninguém por aqui sabia por onde andava Carlos Henrique. E agora sabe. Do futebol que lhe deu fama e a base para chegar até aqui, quer distância. Mas, aos 62 anos, ele tem novos planos para a vida.

No próximo capítulo, vamos falar sobre esse distanciamento do futebol e as causas disso. Por que Carlos Henrique considera que “futebol é muito triste”? E a série termina daqui a dois capítulos, mas ainda temos muitas novidades para contar. Como os novos planos para muito em breve, inclusive de reencontrar seus antigos companheiros de Desportiva, da geração de ouro do final dos anos 70.


Fonte: folhadoes.com

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