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Mensagem para Garcia


Sérgio Neves

Sérgio Neves

Jornalista

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  19.setembro.2017

Já passei dos 30 anos de carreira na imprensa, e, em especial na cobertura da área policial de Cachoeiro de Itapemirim e do sul do estado. Sou do tempo em que as ocorrências policiais eram escritas a mão e tinha de fazer malabarismos para entender as mesmas – algo parecido como o rapaz da farmácia faz, para compreender a letra do médico na receita.

Eram tempos difíceis na vida política brasileira e ir à delegacia era um temor para muitos, principalmente com aquele gravador, tipo tijolo - iniciei minha carreira no rádio. E, além de decifrar o que estava escrito no livro de ocorrências, tinha de contar com a boa vontade dos policiais e, em especial do delegado para conseguir as informações e depois repassá-las aos ouvintes da ZYL-09, a Rádio Cachoeiro.

Peguei a época do Tenente Francelino Vicente, da PM e que foi delegado de Cachoeiro por muitos anos e com ele mantinha um bom relacionamento, apesar da fama de “Linha Dura”, nunca me negava à informação que precisava. O tempo passou e vieram às transformações, o delegado voltou a ser civil e não militar; surgiram os batalhões e companhias da PM; mas em todos eles, nunca me foi negada a informação pelo Serviço Reservado ou P/02 e pelos comandantes quando a ocorrência tinha grande repercussão.

E nesta jornada profissional, mantive sempre esta convivência com todos os delegados e comandantes que, por Cachoeiro e região passaram, além dos investigadores, escrivães e a turma do SML, que compreendiam a minha profissão, o meu ganho pão e não colocavam nenhum empecilho para dar a informação. Alguns que vi iniciar a carreira e que hoje ocupam lugar de destaque na Segurança Pública da Terra de Ortiz.

Pena que nos dias de hoje, conforme escuto dos colegas profissionais que atuam na área e seus lamentos; com toda a tecnologia disponível é uma missão impossível efetuar a cobertura do noticiário policial em Cachoeiro e no Sul do Estado, sem antes da notícia ser analisada, filtrada e depois autorizada a ser divulgada; por ordens superiores.

Uma mordaça nos profissionais que estão cerceados de ganharem o pão de cada dia, suando a camisa em busca da informação para levar a seus ouvintes, leitores e telespectadores, por estas mesmas pessoas que dão as “ordens superiores”; mas que não resistem aos holofotes e câmeras ou ainda a microfones para eles serem supostamente o ator principal do acontecimento. E depois ganharem elogios do maioral para afagarem seus egos na ciranda da fogueira da vaidade.

E agora, neste tempo de plena vigência do regime democrático, os meus colegas, que hoje atuam na área do jornalismo policial na capital secreta do mundo, estão tolhidos de efetuarem a cobertura do dia a dia no noticiário policial, por uma determinação, que, segundo eles, foi dada pelo secretário André Garcia - que não classificaria como “Aprendiz de Torquemada” e muitos menos de J. Edgar Hoover - de que as ocorrências policiais sejam fornecidas apenas pela Secretaria de Segurança em Vitória , um desrespeito ao trabalho dos profissionais do sul do estado e que causa indignação.

Pediria ao secretário que fizesse uma revisão de sua decisão e proporcionasse aos colegas condições de exercer suas atividades profissionais dignamente. Eles são como o personagem do Mensagem a Garcia, escrito pelo americano Elbert Hubbard, no final do século XVIII, cujo final é assim: A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições.

Tudo que tal homem pedir, se lhe há de conceder. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: Precisa-se, e precisa-se com urgência, de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia. E assim caminha a humanidade....



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