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Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós


José Roberto Padilha

José Roberto Padilha

José Roberto Padilha, jornalista, cronista, escritor, técnico de futebol e ex-jogador de futebol profissional, com passagens pelo Fluminense, Flamengo e Santa Cruz de Recife.

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  06.maio.2022

Ao país mais hipocrita ao tratar o racismo no mundo, Deus prometeu torná-lo, igualmente, o país do futebol. E no mais alto lugar do seu reinado, colocaria seus meninos pobres e pretos, como a dar uma lição em sua embranquiçada maioria.

Vocês podem isolá-los nas periferias, disse Ele. Colocá-los em escolas públicas para que estudem em um só periodo, porque no outro precisam ser moto-boys para ajudar a família.

Desse jeito, conseguem afastá-los das melhores posições de largada no Enem. Mas quando a bola começar a escolher quem manda...

Vem a forra. Precisam, seus líderes, de um campo de terra batida na periferia, como formação. Bem como pés descalços para ter o tato que é negado, por cuidados, ao garoto classe média que ganhou do pai uma Adidas PróPower de presente.

E quem pode, compra todas as camisas do Fluminense para dar ao seus filhos. E aos pais cujos filhos jogam, é não tem dinheiro pra comprar, é o tricolor quem paga para que a usem. E o defendam. Silêncio na Senzala, inconformismo na Casa Grande.

Um dia, disse o criador, o brasileiro vai se conscientizar do valor daqueles miscigenados que sempre serviram ao país, desde a colônia, e pouco são reconhecidos fora dos gramados.

Além de seguranças, estivadores, motoristas e cantores, vão ter que aturá-los na sala VIP do Galeão. Chegando para jantar no Copacabana Palace num Jaguar.

Um rei Pelé, um príncipe Ivair, um parlamento com Ronaldinho Gaúcho, Romário, Rivaldo e Ronaldo, do São Cristóvão, emergido do subúrbio de Bento Ribeito, a assustar o mundo. E cada um deles trazer, para nosso orgulho,a cobiçada Bola de Ouro da Fifa.

Isto sem falar naquele menino humilde, Paulo César Cajú, que com uma bola nos pés, sem parentes importantes e vindo do interior, voltou da França com a cobiçada Comenda de Napoleão no peito?

Agora, quando o Real Madrid alcança outra final da Champions, além do peso exaltado da sua camisa, todos reconhecem o talento de um outro brasileiro. Afinal, que laboratório é esse que concebeu este tal Rodrigo?

Não foi da Escolinha do Barcelona, no Le Canton, de Teresópolis, onde o pacote custa hum mil dólares. Mas das encostas das cidades, outras dos subúrbios do interior, onde foram erguidas duas traves de bambu. E seus meninos de um só brinquedo analógico travaram, durante toda a sua adolescência, um duelo de destreza com uma bola de futebol.

Quantos pais economizaram o que não tinham, quantas mães pegaram seus meninos pelas mãos, entraram nos ônibus com o dinheiro das roupas que lavaram e foram a Xerém, ao Ninho do Urubu, mostrar o Made In God que trouxeram ao mundo.

Tão perfeito o plano de Deus, que quando eleva um Zico, e esse fica rico e ajuda toda a família, transferem o seu dom para outras que precisam. Porque no lar do Arthur Antunes e da Sandra, a justiça social já foi concedida.

E, a exceção do Djalminha, nenhum filho alcançou os feitos dos seus pais.

Deus é um socialista e por aqui encontrou a mais nobre das soluções: se amam o futebol, levem seus filhos formados para os camarotes. E vamos aplaudir, deixar dar o espetáculo, aqueles que os poderosos e opressores vivem a negar espaço e oportunidades.

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