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Quem está em pé, cuide para não cair


José Caldas da Costa

José Caldas da Costa

Jornalista, geógrafo, pós-graduando em Psicologia Positiva.

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  01.maio.2020

Você não precisa acreditar na Bíblia para acompanhar meu raciocínio nas próximas linhas. O título acima é um fragmento de uma carta que Saulo de Tarso, então com o nome revertido para Paulo, mandou para a Igreja em Corinto, cidade-portuária da Grécia. O seu novo nome deriva de Paullus, que, em latim, significa pequeno ou baixo. Foi assim que Saulo passou a sentir-se depois de, literalmente, cair do cavalo, no dramático episódio bíblico de sua conversão de perseguidor de cristãos a perseguido pelo Império.

Dada essa contextualização da origem da frase, vamos avançar, pois o que o “apóstolo dos gentios” está utilizando é algo que aprendeu na cultura greco-romana, mais grega que romana. Portanto, é um pensamento também para se considerar do ponto de vista da filosofia e da ética, e que tão bem se aplica aos nossos interessantes - mas confusos - dias.

Eric Hobsbawn, um dos mais expressivos pensadores e observadores da sociedade do século XX, escreveu como sua derradeira obra, lançada em 2002, uma autobiografia chamada “Tempos Interessantes”. Uma narrativa de sua percepção dos tempos que viveu por 95 anos, a partir de 1917, quando nasceu na aristocrática Londres. Falou do que viu e ouviu. Talvez hoje esteja nascendo aquele que no futuro narrará a história do século XXI como “tempos muito interessantes”.

Em meio a todo o aparato tecnológico, o ser humano se curva perante o invisível – e não é diante um deus, ou de Deus, para os que cremos. Curva-se perante um vírus, um ser sem vida, como definiu o filósofo contemporâneo Mário Sérgio Cortella em entrevista à Folha de São Paulo. Porém, parece que somos incompetentes para curvarmo-nos perante sua excelência a consciência.

O que nos desafia não é aprender as novas tecnologias, mas a velha e boa convivência humana. De repente, vimo-nos perante a necessidade de demonstrar amor não visitando nossos pais, avós e tios. Inventamos os encontros virtuais para fugir dos desencontros domésticos. Afinal, de repente, descobrimos que não conhecemos aquela pessoa com quem convivemos sob o mesmo teto há tanto tempo – e pode ser o marido ou a esposa, o companheiro ou companheira, o filho, a filha, o pai, a mãe, a avó, o avô.

No início, parece interessante, mas depois fica desgastante. Temos de aprender a respeitar os espaços uns dos outros, viver com menos recursos, enquanto do outro lado tentam nos tormar o que nos resta, vendendo-nos produtos virtuais que achamos que precisamos, da mesma forma que aquele monte de entulho tecnológico que juntamos em casa ou no escritório para fugir da vida.

Redescobrimos a escada do prédio, não como nossa inimiga, mas como nossa aliada para mantermos uma vida ativa. Redescobrimos a rua onde moramos, o vizinho do apartamento ao lado, o entregador, o lixeiro, o motoboy, o policial, o enfermeiro, o médico... como seres humanos e não como números.

E descobrimos que, se cairmos, não há quem nos levante, e que cuidar da saúde é não ficar doente, porque nos hospitais o que nos espera é Sua Majestade o vírus, que pode ser letal. Não há vaga para os comuns, apenas para os corona-súditos.

Ou seja, não bastasse a confusão de valores, de ética, a nos confundir a existência, ainda vem o inimigo invisível a derrubar fracos e fortes. Corinto, a cidade grega, parecia viver a mesma confusão no início da era cristã, por isso o conselho do apóstolo é tão oportuno: quem está em pé, tenha cuidado para não cair.

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