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A Palmeira Imperial


José Caldas da Costa

José Caldas da Costa

Jornalista, geógrafo, pós-graduando em Psicologia Positiva.

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  23.julho.2018

Por entre as folhas da palmeira imperial gigante, brilham os raios de sol da manhã de inverno. Essas árvores centenárias, que testemunharam o nascer da cidade, ainda no século XIX, marcaram minha infância no jardim velho, que eu revisito em busca de memórias dos tempos inocentes, quando a antiga praça não era cercada de grades e nem tinha horário de abrir e fechar.

Era das crianças, dos idosos, dos jovens que dormiam em seus bancos de madrugada para se refazerem das farras, dos namorados, dos casais de todas as idades, que se amavam em suas sombras diurnas ou noturnas. Presenciou encontros e desencontros, acertos e desacertos, escondendo, em meio à sua histórica vegetação, o modesto palácio municipal, que já sediou os três poderes, mas hoje abriga apenas parte do Executivo.

Passo pelo coreto da Praça Seis de Janeiro e chego à esquina com a Rua Dr Wanderley. Lembro que nos degraus de acesso à Mobiliadora Caparaó sentávamos nas noites quentes de verão para ver o desfile das moças de nossa idade pela calçada e pela passarela da rua, fechada aos domingos até a Praça da Bandeira para comportar tanta gente no seu passeio depois da missa das sete.

Caminho anônimo pelas ruas onde vivi meus melhores sonhos, antes de pôr o pé na estrada, para além das montanhas. Entro em algumas lojas que sei pertencerem a pessoas que viram a minha história e reconhecem-me. Uma busca de minha verdadeira identidade.

Passo pelo coreto da Praça Seis de Janeiro e chego à esquina com a Rua Dr Wanderley. Lembro que nos degraus de acesso à Mobiliadora Caparaó sentávamos nas noites quentes de verão para ver o desfile das moças de nossa idade pela calçada e pela passarela da rua, fechada aos domingos até a Praça da Bandeira para comportar tanta gente no seu passeio depois da missa das sete.

Procuro um lugar que não atrapalhe o acesso à loja. Sento-me, ninguém me incomoda. Na verdade, acho que ninguém mesmo me nota, agora que tenho meus cabelos embranquecidos pela ação do tempo. De óculos escuros para proteger os olhos do sol (e de terem sua direção percebida), fico mais de uma hora simulando consultar as redes sociais e as conversas do whatsapp, enquanto observo quem passa.

Fico tentando imaginar de quem aquela menina ou aquele rapaz é filho ou neto. Descubro que já não conheço mais ninguém, e que sou um estranho em minha própria terra.

Volto à palmeira imperial. Eu era bem pequeno e ela já era daquele tamanho. Todos a conhecem, mesmo que, de tanto vê-la, já não a observem. Jamais ela saiu dali. Eu, pelo contrário, cresci, dei frutos, que já dão seus próprios frutos, fui além, andei por tantos lugares... E irei por muito mais, até o dia da ceifa. A palmeira, porém, continuará ali. Quem sabe até alguma broca destruir-lhe as raízes ou ser substituída por outra, num desses projetos que “modernizam” as cidades e destroem a sua memória. Até breve, palmeira imperial; até breve, velho jardim. Eu volto.

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