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O Jardim Araceli


José Caldas da Costa

José Caldas da Costa

Jornalista, geógrafo, pós-graduando em Psicologia Positiva.

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  16.julho.2018

A coisa grande, cinzenta e cara já ficou para trás em minha jornada de ciclista pela região metropolitana no domingo de sol de inverno, o que mata de inveja os brasileiros do Sul do País, que congelam nas montanhas e no litoral.

Ainda busco “a coisa” com o rabo do olho e evito olhar de novo para não me chatear, porque ela rouba-me a beleza da entrada da baía de Vitória, espelhando em suas águas a projeção dos morros de Vila Velha. Distraio-me com novas vistas, depois que a transponho.

Minha visão se clareando, ainda tenho tempo de simular, na self, pegar com a mão o vão central da terceira ponte quando a moça gentil se oferece:

“Quer que eu faça uma foto do senhor?”. Sim, quero. E nem me lembro de antecipar o agradecimento e nem mesmo que ela chamou-me de senhor. Também já não me importo.

“Quer que sai a bicicleta junto”? Sim, quero. A foto é bonita, a moça simpática. Agradeço e sigo em frente.

A antiga Praia do Canto, hoje praia do aterro, está cheia de gente que não deveria se banhar nas águas impróprias, mas se banha. Lanchas e jet-skis singram as águas tristemente famosas pelo acidente que custou uma das pernas do medalhista olímpico Lars Grael no início do século.

Perco-me um pouco porque a ciclovia termina no calçadão, onde disputo espaço com pedestres até lembrar-me de que uma das pistas de rolamento da Saturnino de Brito está reservada para nós no domingo.

Atravesso a Ponte de Camburi. Um lado inteiro da Dante Micheline é também nosso e a invadimos, de bicicleta, a pé, de skate, patins. A orla de Camburi está tomada de gente com pouca roupa, que ninguém nota, porque estamos todos praticamente iguais. Lembro que ali, no calçadão, há quase 16 anos dei meus primeiros passos de volta à vida, deixando para trás o sedentarismo e os maus hábitos alimentares que me levaram à obesidade.

Chego ao final da avenida, ao Jardim Araceli, onde a menina tem o sorriso infantil congelado no grafite, junto à sua eterna boneca. É uma dessas iniciativas que nascem da vontade popular e fazem o poder público agir. Ah, se soubéssemos como temos força!!!

Ironia. O memorial em homenagem à menina, brutalmente assassinada depois de violentada aos 9 anos, em 1973, fica no final da avenida que leva o nome do avô dos acusados pelo crime (hoje, o processo foi arquivado pela Justiça e ninguém foi punido). Eu dava meus primeiros passos na adolescência, tinha 13 anos, e lembro-me bem da repercussão do caso, que acompanhei bem a partir do ano seguinte, quando entrei no jornalismo, e nos anos subsequentes.

O nome da menina sempre esteve em minha lembrança. Não consigo sorrir na self com o mural ao fundo.

O viaduto é cinza e, neste momento, nem o canteiro bem cuidado, nem as flores, nem o pequeno bosque, nem a fome, nem a sede, nem a lembrança da pequena vítima da maldade adulta, nem a ansiedade do início do retorno para casa, nada disso consegue impedir que meu pensamento volte à coisa cinza, grande e cara que me roubou a paisagem grande angular da entrada da baía de Vitória.

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