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Existiu em Jesus algum tipo de violência?


Padre Ezequiel Pozzo

Padre Ezequiel Pozzo

Sacerdote do clero secular da Diocese de Caxias do Sul (RS), atuou na paróquia Santa Fé, em Caxias, e no Santuário Diocesano Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha. Desde 2014, reside no Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias.

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  07.agosto.2018

Um dos problemas fundamentais quando pensamos em Jesus, hoje, é repensar a questão do sofrimento. O discurso tradicional sobre Jesus nos faz pensar que precisamos sofrer para nos salvar. O sofrimento seria necessário para a salvação. Essa ideia está fundamentada na própria tradição e pregação da Igreja que sustenta que “Cristo morreu pelos nossos pecados”. Você que crê, deve considerar essa afirmação tranquila e verdadeira, afinal já a ouviu inúmeras vezes. Na Bíblia encontramos isso de forma ainda mais contundente. “Sem derramamento de sangue não há perdão”, encontramos em Hebreus 9, 22. O apostolo Paulo afirma: “Deus não perdoou nem seu próprio Filho, mas o entregou (à morte) por nossos pecados” (Rm 8, 32).

Você pode me perguntar: “afinal, padre, o que quer dizer com isso”? Quero te dizer que essas afirmações acima podem produzir em nós e na humanidade um efeito muito perigoso. Qual seja? Compreendermos que é sempre necessário o sofrimento para solucionar o pecado. Sabemos que o pecado é o que nos separa de Deus e a libertação do pecado o que nos aproxima de Deus. Se a solução do pecado é o sofrimento, a dedução comum, que acontece em nossas cabeças de crentes, é que precisamos passar pelo sofrimento para estarmos perto de Deus. Essa dedução é um assombro. Reproduz a ideia de que Deus rima com dor, com padecimento, derramamento de sangue, expressões essas que traduzem de forma clara a realidade repugnante da violência. Jesus foi radicalmente contra a violência. No entanto, na história das religiões e do próprio cristianismo, essa ideia, se traduziu em guerras e violências em nome de Deus. Afinal, valeria a pessoa sofrer violência e até ser morta, para ser salva, uma vez que, não “convertida” a fé, não seria salva e esse seria o pior destino. Assim, valia o argumento da violência imposta ao “não crente”, ao diferente, para “salvar a sua alma”. Em nome de Deus se legitimava tudo.

Vejam que o papa João Paulo II pediu perdão das barbaridades cometidas na história da Igreja por essa postura violenta e, dá para dizer, anti-Evangelho. Se o Evangelho significa uma boa notícia isso nunca mais poderá acontecer. Mas aqui surge uma pergunta: estaríamos nós, hoje, distantes desse pensamento? Já evoluímos o bastante? Não. Ainda prosseguimos com essa compreensão. Quando supervalorizamos a dor de Jesus, o sangue, as mãos ensanguentadas, a cruz, os açoites, a violência sofrida; quando não aceitamos crenças diferentes, posturas diferentes, quando valorizamos mais a doutrina sobre Deus do que o amor, quando somos intolerantes e autoritários em nossa fé, então, ainda estamos enraizados e presos nessa velha compreensão. Jesus nos salvou porque nos amou e não porque sofreu. O sofrimento de Jesus foi imposto pelo mal. Não é o “sofrimento em si” que nos salvou. Não foi a cruz que nos salvou. Mas o amor que transpareceu na cruz. Caro leitor, essa compreensão muda muita coisa e muitas posturas. Precisamos continuar conversando em outro momento.

Deus está conosco. Ele é amor!



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